A biomecânica é o pilar mais avançado da podologia contemporânea.
É ela que permite enxergar o que o olho não vê: padrões de movimento, compensações, sobrecargas, alinhamentos alterados e pequenos desvios que, somados, explicam boa parte das dores e lesões dos pés.

A marcha — o modo como o paciente caminha — é um espelho do corpo inteiro.
Alterações nos pés modificam a marcha; e alterações na marcha geram novos problemas nos pés. Esse ciclo é silencioso, progressivo e, muitas vezes, invisível para o paciente.

Este guia traduz a biomecânica de forma prática, clínica e aplicável ao consultório.


1. Por que a marcha explica tantas dores nos pés?

A marcha é um fenômeno complexo, composto por:

  • rotação

  • transferência de peso

  • ativação muscular

  • distribuição de cargas

  • equilíbrio

  • mobilidade articular

Quando algo nesse sistema falha, surgem sinais clínicos:

  • dor ao caminhar

  • hiperqueratoses localizadas

  • helomas persistentes

  • dorsalgias

  • fascite plantar

  • alterações ungueais recorrentes

A literatura mostra que até 70% das lesões não traumáticas dos pés têm relação com padrões anormais de marcha (Wallace, 2020).


2. As 4 fases da marcha e seus impactos podológicos

A marcha é dividida em etapas que revelam a origem da dor:


2.1. Contato inicial (heel strike)

Riscos quando alterado:

  • impacto excessivo no retropé

  • dor no calcâneo

  • fissuras

  • lesões em idosos

  • hiperpressão em neuropatas


2.2. Apoio médio (mid-stance)

Alterações comuns:

  • arco rígido

  • pronação excessiva

  • valgismo

  • joanete

  • sobrecarga medial


2.3. Propulsão (push-off)

Quando alterada:

  • dor no antepé

  • neuroma de Morton

  • metatarsalgias

  • calosidades no 2º ou 3º metatarso


2.4. Balanço (swing phase)

Alterações:

  • dedos em garra

  • rigidez de tornozelo

  • encurtamentos

  • risco aumentado de quedas (idosos)


3. Sinais que revelam um problema biomecânico

O podólogo deve suspeitar de alteração de marcha quando encontra:

• Calosidade sempre no mesmo ponto

• Unha encravada recorrente

(conhecido como “padrão de compressão dinâmica”)

• Dores que aparecem apenas ao caminhar

• Sapatos gastos de forma irregular

• Desconforto ao ficar muito tempo em pé

• Deformidades digitais progressivas

• Lesões que nunca cicatrizam completamente

Esses sinais mostram que há uma causa mecânica por trás do sintoma.


4. Avaliação biomecânica no consultório

Não é necessário ter equipamentos caros.
Com técnica, o podólogo já consegue identificar 80% dos problemas.

4.1. Avaliação estática

  • arcos plantares

  • eixo do calcâneo

  • rotação de joelhos

  • simetria

  • pontos de hiperpressão

4.2. Avaliação dinâmica (marcha)

Observar:

  • contato inicial

  • ritmo

  • tempo de apoio

  • queda do arco

  • deslocamento do joelho

  • rotação de quadril

  • passos curtos ou cruzados

4.3. Testes clínicos úteis

  • teste de mobilidade do hálux

  • dorsiflexão de tornozelo

  • teste de força intrínseca

  • sensibilidade plantar

4.4. Recursos adicionais (quando disponíveis)

  • baropodometria

  • scanner plantar

  • filmagem em câmera lenta


5. Relação entre marcha e patologias comuns

A biomecânica explica:


5.1. Onicomicose recorrente

Pacientes com marcha alterada pressionam sempre o mesmo ponto da lâmina.
Isso reduz a ventilação local, aumenta microtraumas e cria ambiente favorável ao fungo.


5.2. Fascite plantar

Pronação prolongada + encurtamento posterior → sobrecarga plantar.


5.3. Joanete (hálux valgo)

Descompensação biomecânica crônica, muitas vezes genética + marcha alterada.


5.4. Calosidades que reaparecem sempre

São mapas de pressão — a pele denuncia o erro biomecânico.


5.5. Metatarsalgia

Propulsão alterada → sobrecarga do 2º e 3º metatarsos.


6. Intervenções podológicas que corrigem a marcha

A podologia moderna tem ferramentas potentes:


6.1. Ortoplastias (silicone clínico)

Usadas para:

  • regularizar apoio

  • separar dedos

  • melhorar propulsão

  • reduzir atrito

É uma das intervenções biomecânicas mais imediatas.


6.2. Palmilhas funcionais

Quando o caso exige suporte mais global.


6.3. Suporte digital e alinhamento

Indicados para:

  • dedos em garra

  • dedos supraduzidos

  • joanete

  • hiperpressão interdigital


6.4. Reeducação postural e orientações de marcha

Simples ajustes feitos em consultório já transformam o caminhar.


6.5. Controle de calçados

O podólogo deve ensinar:

  • teste do polegar

  • testagem de flexão

  • solado ideal

  • altura correta da biqueira


7. Quando encaminhar?

Encaminhar quando houver:

  • dor persistente

  • suspeita de fratura por estresse

  • alterações neurológicas

  • suspeita de doença vascular

  • mobilidade severamente limitada

A integração com fisioterapeutas, ortopedistas e educadores físicos é essencial.


8. Conclusão

A biomecânica é uma das áreas mais poderosas da podologia.
Ela não só explica a dor — ela muda o rumo do tratamento.

O podólogo que domina análise de marcha:

  • diagnostica melhor

  • reduz recidivas

  • prescreve melhores órteses

  • diminui dor

  • previne cirurgias

  • aumenta valor percebido

  • fideliza pacientes de alto nível

É o próximo passo natural para elevar a podologia brasileira ao padrão internacional.


Referências (ABNT)

 

WALLACE, J. Biomechanics of foot pain in adults. Clinics in Foot & Ankle, 2020.
GARCIA, F.; RODRIGUES, M. Biomecânica Clínica Aplicada. São Paulo: 2021.
TOLEDO, I. Análise funcional da marcha. Revista Digital de Podologia, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Atenção ao Pé Doloroso. Brasília, 2022.
BRUNNER, L. Patterns of gait and foot disorders. Gait & Posture Journal, 2019.